1976
Sei que a minha mãe me quis muito. Mesmo muito. Diz ela que fui um milagre. Que ao fim de dois anos a tentar, um dia no metro deu por ela a pedir aos céus o milagre de ficar grávida. Isto com vinte anos... Enfim... Como eu sempre digo, é preciso ter cuidado com aquilo que se pede, porque o mais provável é tornar-se realidade. E lá vim eu responder às suas orações. É do meu feitio, dar aos outros o que eles querem, que muitas vezes não é o que as pessoas realmente precisam, mas isso é outra história, para contar mais adiante... E a vida não me começou muito bem. Nem mesmo na barriga daquela gaiata de dezanove anos. Era mesmo uma miúda. Da aldeia. Franzina. Mas com muito sangue na guelra, ou pêlo na venta, como se diz na terra dela, e na minha, que é a mesma, mais uma história a desenvolver, de onde literalmente fugiu com o respectivo sapo encantado... Príncipe, queria eu dizer...
Ainda hoje não consigo perceber o que uma mulher como a minha mãe viu num homem como o meu pai. Ela cheia de ginete. Ele um paz de alma. Ela poupada, quase sovina, diria eu. Ele um perdulário. Dizem que os opostos se atraem, e deve ter sido isso que aconteceu, para que dois miúdos, ela com dezoito anos e ele com vinte, terem decidido casar e rumar à capital, fugindo assim das respectivas aldeias que ficam onde Judas perdeu as botas.
Dizem que o casamento foi... Diferente... Ele teve dois cabeleireiros a tratar-lhe do cabelo, ela lavou-o e deixou secar ao ar. E na madrugada desse dia estiveram juntos ( com o resto da aldeia ) a apagar um fogo que lavrava as terras que ladeavam a casa dos meus avós. Nem a bravata do meu pai fez com que o meu avô baixasse a guarda pois quando viu o meu pai a pôr o braço por cima do ombro da minha mãe para comemorar a vitória sobre as chamas, repreendeu-o com uma sapatada. Afinal era a sua benjamim. A sua princesinha.
A minha mãe devia ter percebido que o meu pai não seria um grande marido, e muito menos um grande pai.
Sei que a minha mãe me quis muito. Mesmo muito. Diz ela que fui um milagre. Que ao fim de dois anos a tentar, um dia no metro deu por ela a pedir aos céus o milagre de ficar grávida. Isto com vinte anos... Enfim... Como eu sempre digo, é preciso ter cuidado com aquilo que se pede, porque o mais provável é tornar-se realidade. E lá vim eu responder às suas orações. É do meu feitio, dar aos outros o que eles querem, que muitas vezes não é o que as pessoas realmente precisam, mas isso é outra história, para contar mais adiante... E a vida não me começou muito bem. Nem mesmo na barriga daquela gaiata de dezanove anos. Era mesmo uma miúda. Da aldeia. Franzina. Mas com muito sangue na guelra, ou pêlo na venta, como se diz na terra dela, e na minha, que é a mesma, mais uma história a desenvolver, de onde literalmente fugiu com o respectivo sapo encantado... Príncipe, queria eu dizer...
Ainda hoje não consigo perceber o que uma mulher como a minha mãe viu num homem como o meu pai. Ela cheia de ginete. Ele um paz de alma. Ela poupada, quase sovina, diria eu. Ele um perdulário. Dizem que os opostos se atraem, e deve ter sido isso que aconteceu, para que dois miúdos, ela com dezoito anos e ele com vinte, terem decidido casar e rumar à capital, fugindo assim das respectivas aldeias que ficam onde Judas perdeu as botas.
Dizem que o casamento foi... Diferente... Ele teve dois cabeleireiros a tratar-lhe do cabelo, ela lavou-o e deixou secar ao ar. E na madrugada desse dia estiveram juntos ( com o resto da aldeia ) a apagar um fogo que lavrava as terras que ladeavam a casa dos meus avós. Nem a bravata do meu pai fez com que o meu avô baixasse a guarda pois quando viu o meu pai a pôr o braço por cima do ombro da minha mãe para comemorar a vitória sobre as chamas, repreendeu-o com uma sapatada. Afinal era a sua benjamim. A sua princesinha.
A minha mãe devia ter percebido que o meu pai não seria um grande marido, e muito menos um grande pai.
K.