Quem de entre vós, não provou este xarope pestilento? Com um sabor horrível que demorava a sair da boca, por muito que se bebesse água ou sumo ou o raio que o partisse... ( Todos os dias rezava às alminhas que a porcaria do frasco se partisse). Eu nem tinha direito aos disfarçados de sabor a laranja e afins. Era horrível, sabia mal como tudo... Mas fazia bem. Fortalecia. Dava saúde. E assim foi este murro no estômago... Doeu como tudo. Deixou-me um amargo de boca que nem todos os chocolates do mundo fazem desaparecer. Saber que afinal fui mesmo a única a acreditar que existia amor custa a digerir. Saber que estava a dar o melhor que sabia, para ser julgada sem dó nem piedade torce-me as entranhas. Saber que pode haver alguém que por segundos ache que podia estar a usar o que há de mais sagrado para mim, dá-me vontade de vomitar. Mas tal como o xarope, por pior que seja o gosto que deixa na boca, faz bem! É só mais um véu que se abre, mais uma ilusão que acaba. Porque eu não amei alguém assim. Não está em mim amar alguém assim. Amei outra pessoa qualquer, que pelos vistos só existiu na minha cabeça. E tu... Lamento que, estando tão perto, não conseguisses ver melhor. Não há nada mais libertador que descobrirmos a verdade. Por mais amargo de boca que cause. Uma vez disse-te: É sempre mais feliz quem mais amou. É verdade! A minha tristeza vem de não saber quem foi que amei...
K.