Como a irritava o facto de ele andar sempre depressa. A ideia que ele tinha de que era um Às ao volante tirava-a do sério. Passava o tempo todo a suplicar-lhe que andasse mais devagar, mas quanto mais ela falava, mais depressa ele andava.
Numa noite, já farta de lhe pedir que abrandasse, e já sem mais um pingo de paciência, gritou-lhe:
- " Pára já o raio do carro, que eu vou a pé para casa."
Ele olhou para ela, lançou-lhe aquele sorriso de miúdo reguila que a fazia derreter-se e, abrandando um pouco, disse com suavidade:
- " Páro já..."
Virou para uma estrada de terra batida, estreita e rodeada de árvores e de mato bravo. Ao fim de muitos solavancos , e já a sentir que iria explodir de raiva a qualquer momento, ela gritou:
- " Mas que raio estás tu a fazer?! Pára já o carro!! Já te disse..."
Não acabou a frase, ele tinha parado. Ali... No meio do nada.
- " Vá! Não querias ir a pé? Vai então..."
- " Não podes estar bom da cabeça! Onde raio é que nós estamos?"
- " Parei, tal como querias. Ainda te queres ir embora a pé?"
Sem pensar na loucura do que estava prestes a fazer, respondeu-lhe:
- " Pois vou!..."
Abriu a porta do carro, saíu para a noite fria e escura de inverno, e sem saber em que direcção, andou com ar decidido.
Claro que, nem meio minuto se passou, sem que ele já estivesse ao pé dela.
- " Não acredito que ías mesmo!... És doida? Estamos no meio do nada!..."
- " Nem sequer quero falar contigo..."
E tentou continuar a andar, meio aos tropeções, já que meio do mato, cheio de lama, e sapatos de salto alto, não são de todo compatíveis.
Ele alcançou-a rapidamente, pegou-a ao colo, e depois de um beijo suave, disse:
- " Gaita!... Acho que nunca conheci ninguém tão casmurro como tu."
No meio de muitos "pára", "deixa-me" e "põe-me no chão", ele lá conseguiu levá-la de novo para o carro.
- " Agora vou portar-me bem, prometo."
Estava na altura de fazer as pazes.
Então ali, no carro, no meio do nada, começaram por beijar-se como selvagens ( aliás, faziam tudo assim, pareciam loucos ), e no meio de muitos amassos, literalmente arrancaram a roupa um do outro. Quando estavam já só de roupa interior, ela de tanguinha, soutien e meia de liga, e ele de boxer shorts, começaram a sentir que sufocavam com o calor que fazia dentro do carro.
- " Vamos lá fora, refrescar um bocadinho?"
- " Se calhar é melhor..."
Ele saíu. Ela saíu atrás dele...
E num gesto absolutamente mecânico, accionou o trinco da porta, e fechou-a.
- " Não!... Tu não...?"
- " O quê? Tranquei a porta? Oooops! Acho que sim... Não tens a chave?"
- " Claro que não!!! Estão lá dentro, na ignição! Não posso acreditar que nos trancaste fora do carro, semi-nus , no meio do mato!!! "
Em vez de tentarem arranjar uma solução desataram a gritar um com o outro. Nenhum tinha razão. Ao fim de meia hora de gritos, calaram-se ao ouvir a sirene de um carro de policia que passava na estrada estrada principal, e, numa atitude irreflectida, deitaram-se no chão. Estavam em silêncio, agora. Olharam um para o outro, e desataram a rir. De repente, ele calou-se outra vez. A lama que a cobria um pouco pelo corpo todo, realçava o lado selvagem dela, e tornava-a ainda mais sensual. Sentiu o desejo apoderar-se dele, e beijou-a. Tentou amá-la com calma, mostrar-lhe que queria abrandar. Mas o cheiro dela, misturado com o cheiro da natureza, realçado pelo estremecer do corpo dela em reacção às carícias dele, libertou o seu lado mais instintivo. Queria sentir que ela lhe pertencia. Que seria sempre só dele. Então, os seus movimentos tornaram-se mais bruscos e as suas carícias trasformaram-se em apertos. Ela apercebeu-se. E deixou-se levar. Sabia que lhe pertencia. E ele a ela. Só queria que ele a amasse, não importava como. Foi num ápice que explodiram de prazer. Deixaram-se ficar. Assim estendidos no meio no nada, cobertos de amor e de lama, até que começaram a sentir frio.
Levantaram-se. E agora muito mais calmos, repararam que um dos vidros tinha uma fresta aberta. Forçaram o vidro para baixo, primeiro com varetas, e depois com as mãos.
Finalmente conseguiram abrir a porta. Vestiram-se sem dizer uma palavra.
No caminho de volta a casa, o velocímetro não acusou mais de 20 Km por hora, e não haviam carros a circular, faltava pouco para o sol nascer.
Ela chegou a casa, tomou um banho quente, e enroscou-se nos lençois macios da sua cama. Depois de rever na sua mente todos os momentos passados naquela noite, teve de abafar as gargalhadas contra a almofada. A sensação de triunfo era do tamanho do mundo.
Sem querer, por uma vez, tinha conseguido que o acelera andasse 15 Km a não mais de 20Km/